Resenha : Risco como Estética, Corpo como Espetáculo

Resenha : Risco como Estética, Corpo como Espetáculo

O livro ‘O Risco como Estética, Corpo como Espetáculo’, de Marina Guzzo foi publicado em 2009, resultado da dissertação de mestrado da autora. Uma das poucas publicações sobre circo e suas relações estéticas em português, o livro defende a estética do circo como materializada no corpo do acrobata. A autora aborda o corpo a partir do prisma da Psicologia Social, no qual ele é entendido como um processo construído na linguagem e no discurso social. Além do corpo materializar essa estética, é também ele que a sente, a experiencia e a aprecia. A autora também fala que há um corpo pós-moderno, que é aquele que busca e vive a vertigem, na Sociedade dos Riscos (Beck, 1993). O conceito de risco, aqui, vem intrincado com a construção histórica sobre o corpo. Para chegar no estudo dessa estética do risco, ela lançou mão de uma pesquisa de campo que compreendeu uma metodologia híbrida, utilizando diário de campo, entrevistas, prática circense, visitas a espaços, dentre outros; além de reunir imagens partindo da perspectiva que essas imagens são construtoras históricas desse corpo acrobata. O conceito de risco, aqui, vem intrincado com essa construção sobre o corpo.

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Marina Guzzo também traz a evolução desse conceito de risco ao longo do tempo. Antes associado à probabilidade de algo acontecer ou não, não carregava valoração positiva ou negativa, como na noção moderna que é mais utilizada hoje. A partir dessa noção, Guzzo traz o espetáculo circense como um espetáculo que une todas essas ideias, um espetáculo do corpo acrobata: corpo evidente, corpo exposto, corpo em risco. O espetáculo não apresenta uma estrutura linear nem narrativa e traz as características de ser um espetáculo de variedades, de apresentar o novo, de trazer ao público coisas fantásticas e seres exóticos a partir de três elementos básicos, a beleza, a alegria e a aventura. Além dessas casracterísticas a autora enfatiza o papel central do corpo como “superador de limites dados pelo espaço, pelo tempo e pelo próprio corpo”(p.57).

Ainda pensando nestas particularidades, a autora afirma que espetáculo circense valoriza o tempo presente, seja na temporalidade das suas estruturas, na itinerância ou no tipo da atenção que o espetáculo demanda. A dramaturgia do espetáculo formada por pequenas cenas independentes de curta duração proporciona um ritmo não linear. Essa estrutura carrega em si o risco da precisão, onde cada número precisa acontecer perfeitamente para o sucesso do todo. A técnica e o treinamento corporal contribuem para a formação de um corpo-máquina, capaz de atender à lógica da repetição e performance, em aliança com os aparelhos. Aqui, ela reforça a ideia de risco não como um sentido em si mesmo, mas sim como a causalidade que se une ao tempo e ao espaço, além da condição, a ação e o efeito.

A estética do espetáculo circense explora o simulacro do risco, que só é possível pelo corpo disciplinado. Esta estética “designa de uma lado a teoria da sensibilidade como forma de experiência possível e ilusória; de outro a reflexão da experiência real, do contato com a morte, com o perigo” (p. 85). O circo, para a autora, é socialmente associado ao risco do corpo e ao risco social e econômico, e essa imagem é perpetuada pelos próprios espetáculos. Assim, é na junção entre o risco ilusório e o risco experienciado que a relação com o público aparece e essa estética é construída.

A partir da pluralidade conceitual Marina Guzzo vem, nessa obra, falar do circo, do risco, do corpo e da estética que abraça tudo isso no espetáculo circense. Naturalmente pluridisciplinar, a autora toca em quase todos os tópicos que comumente são levantados para falar do circo enquanto espetáculo: o corpo circense, o treinamento, o risco, a arquitetura, a economia, a estética. Ainda motivada pelas questões trazidas pela autora, me pergunto de que circo ela fala, na tentativa de trazer o universal dessa linguagem, a partir de uma estética unificadora. Como essa questão vem motivando minha pesquisa, acredito que a obra foi de grande valia para uma abordagem ampla e múltipla, que lança um olhar sobre o circo por diversos ângulos, ainda que com a dificuldade inerente à qualquer análise de generalização do objeto, ainda mais gritante no caso do circo enquanto manifestação artística tão diversa – falta um pouco de objetividade da explicação dos conceitos e no entrelaçamento entre eles.

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